quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Snowtoke


 Tive que parar com os meus pensamentos de medo no momento em que uma luz se acendeu na pequena tenda que ficava um pouco mais afastada da clareira. Uma pessoa trajando roupas de pele de algum animal que não faço ideia de qual seja, e um capuz que me impedia de ver o seu rosto, saiu de lá olhando tudo ao redor. Tentei me esconder, agachando atrás de uma pedra, porém não vi quando um pedregulho saiu debaixo do meu pé e foi caindo delicadamente montanha abaixo. O silêncio era tão aterrorizante que a pequena pedrinha fez um estrago imenso, logo a pessoa encapuzada olhou exatamente na minha direção. " Audição perfeita, droga." Me lembrei quando a criatura, pessoa, homem, seja lá o que for, começou a vir até mim.
" Pular até a parte de baixo dessa montanha, ganhar uma fratura exposta e morrer de infecção, ou morrer de uma forma que só Deus sabe, nas mãos dessa criatura. O que fazer?." 
Decidi não me mexer, na esperança de que talvez ele não tenha me visto, mas...
 - Nje njeri? Çfarë po bën këtu? - Disse o homem dos olhos brancos. E como ele subiu tão rápido? - Asnjëherë mos e imagjinoni kurajën njerëzore apo të mjaftueshme për të ardhur këtu. - Ele disse em meio a um sorriso torto.
O homem de capuz e olhos brancos, me encarava enquanto eu permanecia agachada com o cachecol em volta da boca. Sem entender absolutamente nada do que dizia, meu queixo tremia, e comecei a imaginar minha boca mudando de tom. Ele era extremamente congelante. Quando se inclinou para mais perto senti meus ossos endurecerem, então ele se agachou e continuou me encarando. Ergueu uma das mãos e a pousou em meu rosto, delicadamente tirou uma mecha de cabelo de dentro do meu capuz, e quando chegou mais perto para me farejar, algo o fez paralisar, e no mesmo instante eu apaguei.


***

Minha pele queimava no sol escaldante de Kodrat. Sorria ao ver Irinne correndo de braços abertos pelos campos verdes de nossa casa. Mami acabara de assar seus famosos pães com gergelim, eu sabia pois o cheiro era inconfundível. Irinne logo sentiu e veio correndo em minha direção.
- Shpresa! - Ela gritara - Ta sentindo, irmã?
- Como não sentir, irmã? - Disse segurando uma de suas mãos enquanto me levantava - Mas saiba que Mami fizera para Baba, ele chega hoje de uma longa viagem. Deve estar exausto pobre Baba!
Ouvimos o grito de Mami vindo da cozinha, seguido por um amargo choro. Irenne e eu corremos até a casa, e vimos um dos companheiros de Baba a segurando.
Baba não voltaria mais para casa.

De repente sou levada para a floresta de gelo e a agonia e o desespero tomam conta de mim, "aonde está Irenne? Mami? Baba? Ah não! Baba se foi". A Tempestade vem a minha mente e o terror daqueles dias voltam me assombrar, eu preciso correr. "Mami! Não! Não entre, Baba não está ai!" Eu grito mas ela não me ouve e então é tarde demais. Como uma inútil expectadora, vejo Mami, Irenne, minha casa, os vales e colinas de Kodrat são engolidos pela Tempestade. 
Mas aonde estou? Porque não consigo correr e impedi-las de entrar? 
Sinto algo em meus ombros me segurando, mas não consigo me virar para ver. A Tempestade começa a desaparecer, a fumaça branca, e o frio que a mesma trouxe, se cessam, e eu vejo apenas neve. 
De repente a coisa que me segurava me vira e eu reajo, me debato com os olhos fechados e grito o mais alto...


- Në rregull! 
Abro os olhos e vejo um par de olhos brancos fixos em mim, com as mãos levantadas como se dissesse esta tudo bem. Olho ao redor e percebo que não estou em Kodrat, nem na floresta, e muito menos na montanha onde estivera a, espera... Eu apaguei! O homem... O homem do olhos brancos ele...Começo a me debater e tento me levantar.  Para minha surpresa o jovem não me impede. Saio de perto dele e me encosto na parede, de vidro, "como assim a parede é de vidro"- penso. Olho para baixo e vejo montanhas cobertas de gelo e pinheiros com o mais vívido verde por todo o lado. Tudo gira e me afasto da parede voltando para perto do jovem outra vez.
- A nuk mendon se duhet të ulesh? - Disse o jovem com uma certa preocupação no olhar.
- Eu não falo a sua língua. - Respondi tentando me afastar.
- Por que não disse antes? - Disse sorrindo enquanto tentava chegar mais perto.
O jovem que alem de possuir olhos e um sorriso branquíssimos, tinha cabelos lisos que iam até os ombros, brancos. Usava uma túnica branca um pouco apertada, o que deixava bem evidente seus músculos e uma calça de linho bege que ia afunilando nas pernas. Poderia reparar mais se ele não tivesse me tirado do transe e falado o meu nome.
- Shpresa.
Não disse nada, apenas o encarei, então continuou.
- Me chamo Besnik, o Princ de Snowtoke. Você está segura aqui.
Olhei ao redor e me vi cercada por paredes de vidro, algumas cobertas por longas cortinas na cor creme, e outras com vista para as montanhas cobertas de neve. Um lustre de cristais pendia no centro do teto do quarto, e um tapete felpudo acariciava meus pés. Dei uma olhada rápida para mim mesma e me vi vestida em uma camisola de linho fino, em um tom de pastel. Tudo era claro demais, limpo demais, e frio demais.

- Eu sei que você não está entendendo nada, mas com calma eu te explicarei tudo. Peço que confie em mim.
 Besnik me olhou nos olhos e tive a mesma sensação que tive todas as vezes que ele olhara daquela forma para mim: Eu o conhecia de algum lugar.




  

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